quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Amor, café, filosofias de otário

Quando ouço frases batidas, e me isento de quando falo, me dá um nó na espinha comprometida pelo excesso sedentário que a moldou num colchão corcunda. Da ultima vez disseram que amor é como café, que só serve quente. Blasfêmia!
Amor não serve nem quente nem frio. Ah, pensa você que choramingarei minhas mágoas? Nem por duas doses que me inflamariam ainda mais o fígado castigado e acalmariam essa alma sedenta. Nem mesmo direi que amor não é isso e sim aquilo. O que entendo de amor senão a opacidade frente as pernas tremulas? Por isso repito: amor não serve nem quente nem frio, não serve para nada!
Se não sei do que falo, porque falo?
Falo e enrolo o máximo que posso para ganhar um pouco de atenção. Falo e ganho tempo porque é isso que fazemos. Falo porque entendo mesmo é da falta de amor, e na verdade é sobre isso que todo sabichão fala quando diz que entende dos assuntos do coração. Fala porque sente falta! Falta de um amor correspondido, falta, acima de tudo, de amor próprio.
Quem entende, quem realmente entende de amor está cagando para qualquer conceito maniqueísta. Desses só herdo inveja, pois para mim só resta a falta.
Mas cheguei até aqui porque o que me torce as vísceras mesmo é esse papo de café.
Quem dirá que frio está errado? Café serve para quase tudo, até para corações feridos e textos melados. Não só é útil como necessário, serve quente, requentado, frio, amargo ou com a borra goela adentro.

Nem entrarei no mérito da falta de cigarro.


R.R

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pique-Esconde


Ponho-me de pé
Atrás do orgulho
Você dá a volta
Me pega inseguro

Eu fujo

Dentro das taças
Eu tomo coragem
Procuro-te incessante
Nos mais belos trajes

Então você some

(Ramon)

Pensão


Ontem estacionei a nau em frente ao prédio da minha ex-esposa, pensei de 4 a 8 vezes em desistir, porém desci. Apertei o 104, 3 vezes. Ela atendeu tão logo me identifiquei, e a porta se abriu.
Sabe, esse é um dos momentos em que a vida lhe abre uma porta, mas você seriamente pensa que são as portas do inferno. Highway to Hell parecia uma canção de ninar. Subi andar por andar vendo os números pularem lentamente, abri o paletó e tomei um trago, peguei o cigarro e desisti. Havia uma puta placa de “Proibido fumar”. Deveríamos ter uma lei que proibisse o casamento, em cada bar haveria milhares de placas alertando “Não case, transe”. Se você tem medo de ficar sozinho depois dos 40 é porque não conhece minha ex-mulher.
Cheguei ao 104 e a porta já estava aberta, prontamente fiquei em alerta, pupilas dilatadas, respiração ofegante, como um animal que pressente a armadilha. Lá estava ela sentada no sofá com meu velho cinzeiro de marfim, cada canto daquela casa tinha um pouco de mim, do meu dinheiro sujo e suas lavagens. Porque não interessa como você ganha dinheiro, se um dia você se apaixonar pela pessoa errada, limpo ou sujo, ele pertencerá ao demônio de saia.
Tão logo entrei, ela me disse: Você está atrasado!
Não abri a boca, abri apenas a carteira e peguei o dinheiro da pensão, mais a prestação da estante nova. (quebrei a antiga no ultimo encontro). Enquanto ela contava o dinheiro acendi um cigarro, olhei para o cinzeiro, de marfim, e senti meu estomago revirar as entranhas. Meu velho cinzeiro de marfim, presente de um franco porto-riquenho que conheci numa transação atlântica. Senti o ódio subir pela garganta e estourar todos os vasos sanguíneos do meu olho, me vi quebrando tudo e todos ao meu redor. Quando voltei o olhar para aquela velha monstruosa, lembrei da jovem cinta-liga por quem me apaixonei, num bar a beira-mar às 05:16. Pensei e espancá-la, pelo cinzeiro de marfim, mas me rendi ao perfume do apartamento e todas as lembranças daquele velho chiqueiro mareado.
Transamos por 3 horas, antes do atual marido dela chegar.
Quando fechei a porta ela ainda estava deitada, procurando os cigarros, eu fui embora. Entrei no carro, tomei um trago e quando arranquei ouvi o grito desesperador vindo lá cima, acelerei. Enquanto o barulho dos pneus cantando ensurdeciam a velha rapariga, vi meu velho cinzeiro de marfim rolar pelo banco do carona. Mês que vem eu deposito na conta!

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Mais um dia a menos


Sinto que estou
Mais perto da
Morte
Talvez por estar
Mais perto
do aniversário

Ando beirando esquinas
Beijando a sorte
Não vejo arrancarem
As folhas do calendário

O circo está armado
Tudo pronto
Pelo destino
Vai ser o acaso
De um assalto
O plano maligno
Do divido

Mas eu vou
Sem reclamar
Vou com o acaso
Os jornais me jogarão
Para os números
A família, um tanto
Carola
Entregou nas mãos
De deus o meu futuro

Mas eu volto
Um dia
Na lembrança
Imortal por trás
Dos sussurros 

terça-feira, 31 de julho de 2012

Ser a questão: Eis o não ser

Sou mais o odor
azedo da laranja podre
do que o doce do suco processado
Sou homem de feira,
que chora o preço
Sou o avesso

Sou do cinema que ainda
preserva o cheiro do cigarro
e que tem o vinil da poltrona
um pouco surrado
Enjoo com o cheiro de manteiga

Não sou do carro ou
do casaco. Sou carrasco
do sereno, sou do cuspe
e do pigarro

Sou do amor que
envenena. Sou do poema
Sou do acaso

Não sou de dose
pequena. Nunca fui
para Ipanema. Sou velho,
sou sul, sou amargo.


Bolo de Aniversário

Chá de bico de corvo
Mijo de cabra manca
Leite de mãe viúva
Cinza de vela santa

Cabelo de tatu crioulo
Casco de preá cerrado
Unha de cobra cega
Pedra de rim doado

Sangue de semi-deus
Calcanhar de Aquiles
Pão de corpo santo
Madalena e Afrodite

Rabo de gato capão
Orelha de burro surdo
Carqueja e pó de agrião
Ovo de pato e milho em sabugo

Mandinga forte
Cão raivoso
Inverno intenso
E sal agosto