quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Pique-Esconde


Ponho-me de pé
Atrás do orgulho
Você dá a volta
Me pega inseguro

Eu fujo

Dentro das taças
Eu tomo coragem
Procuro-te incessante
Nos mais belos trajes

Então você some

(Ramon)

Pensão


Ontem estacionei a nau em frente ao prédio da minha ex-esposa, pensei de 4 a 8 vezes em desistir, porém desci. Apertei o 104, 3 vezes. Ela atendeu tão logo me identifiquei, e a porta se abriu.
Sabe, esse é um dos momentos em que a vida lhe abre uma porta, mas você seriamente pensa que são as portas do inferno. Highway to Hell parecia uma canção de ninar. Subi andar por andar vendo os números pularem lentamente, abri o paletó e tomei um trago, peguei o cigarro e desisti. Havia uma puta placa de “Proibido fumar”. Deveríamos ter uma lei que proibisse o casamento, em cada bar haveria milhares de placas alertando “Não case, transe”. Se você tem medo de ficar sozinho depois dos 40 é porque não conhece minha ex-mulher.
Cheguei ao 104 e a porta já estava aberta, prontamente fiquei em alerta, pupilas dilatadas, respiração ofegante, como um animal que pressente a armadilha. Lá estava ela sentada no sofá com meu velho cinzeiro de marfim, cada canto daquela casa tinha um pouco de mim, do meu dinheiro sujo e suas lavagens. Porque não interessa como você ganha dinheiro, se um dia você se apaixonar pela pessoa errada, limpo ou sujo, ele pertencerá ao demônio de saia.
Tão logo entrei, ela me disse: Você está atrasado!
Não abri a boca, abri apenas a carteira e peguei o dinheiro da pensão, mais a prestação da estante nova. (quebrei a antiga no ultimo encontro). Enquanto ela contava o dinheiro acendi um cigarro, olhei para o cinzeiro, de marfim, e senti meu estomago revirar as entranhas. Meu velho cinzeiro de marfim, presente de um franco porto-riquenho que conheci numa transação atlântica. Senti o ódio subir pela garganta e estourar todos os vasos sanguíneos do meu olho, me vi quebrando tudo e todos ao meu redor. Quando voltei o olhar para aquela velha monstruosa, lembrei da jovem cinta-liga por quem me apaixonei, num bar a beira-mar às 05:16. Pensei e espancá-la, pelo cinzeiro de marfim, mas me rendi ao perfume do apartamento e todas as lembranças daquele velho chiqueiro mareado.
Transamos por 3 horas, antes do atual marido dela chegar.
Quando fechei a porta ela ainda estava deitada, procurando os cigarros, eu fui embora. Entrei no carro, tomei um trago e quando arranquei ouvi o grito desesperador vindo lá cima, acelerei. Enquanto o barulho dos pneus cantando ensurdeciam a velha rapariga, vi meu velho cinzeiro de marfim rolar pelo banco do carona. Mês que vem eu deposito na conta!